sábado, 30 de dezembro de 2017

Wittgenstein Para Principiantes – O Tractatus (1922): A lógica positivista e a linguagem como figuração





É uma ironia que um tratado de 75 páginas sobre linguagem, tenha começado com dois
equívocos linguísticos.1 O primeiro resulta da pobre tradução, crucial na comunicação do pensamento entre nações ou indivíduos linguisticamente distintos: o autor dominava mal o inglês; o tradutor era um teenager que dominava mal o alemão. O segundo resulta de uma Introdução ou Prefácio escrita por alguém (Bertrand Russell) que, nas palavras do próprio autor, não tinha compreendido o sentido do livro.2 A introdução de Russell resultou como imposição para a publicação do livro – na verdade espelhando o tipo de “negócios” ou “compromissos” que infectam as universidades modernas. Não é portanto surpreendente que Wittgenstein, tal como outros filósofos alemães, veja a sua obra analisada de forma muito distinta conforme os olhos de quem a analisa, ironicamente refletindo o objecto do seu trabalho: os equívocos da linguagem, a linguagem como meio público de comunicação do que é privado, a linguagem como parte do mundo.3 Sem compreender a mentalidade e a praxis do próprio escritor, é possível que seja inevitável o equívoco, sobretudo provocado pela introdução de Russell, uma vez que o leitor não é uma tábua rasa e tende a interpretar a obra de acordo com os seus próprios valores, como afirmava o próprio autor.

A linha que norteia o livro é o de utilizar os pressupostos da lógica positivista, da ciência, e aplicá-los ao uso da linguagem. Como consequência, traçar uma linha ou limite entre o que pode ser afirmado com certeza, deixando fora dessa linha tudo o resto (religião, ética, estética). Note-se que Wittgenstein não está a afirmar o mesmo que Hegel, quando afirma que o puro acredidato não é conhecimento ou que o intangível (o que não pode ser colocado em palavras) não existe. O que Wittgenstein afirma é que sempre se pode pensar de ambos os lados de um limite, mas, aplicando a lógica positivista, os limites do mundo são definidos por aquilo que se pode afirmar ou provar, ficando tudo o resto fora dos limites da linguagem. As consequências são claras no âmbito da religião: nem um cristão pode afirmar a Encarnação de Deus neste mundo, nem um ateu pode afirmar que o conteúdo religioso é falso:

"Sobre aquilo de que não podemos falar, o melhor é remetermo-nos ao silêncio".

1 - O mundo é a única coisa que importa. O mundo é constituído por factos, não por coisas.

Nota:

De acordo com a abordagem da física, o universo/mundo é a única fonte de factos. Facto aqui é tomado no sentido lógico, não no sentido espaço-tempo; por conseguinte, objectos não são factos. Encontram-se excluídos a religião, a ética e a estética.



2 – O que importa é o facto. O facto é constituído por unidades de facto.

Nota:

O mundo é a totalidade dos factos e não de coisas. O mundo é determinado pelos factos. A totalidade dos factos determina o que importa e o que não importa. O mundo é constituído por objectos que se encaixam uns nos outros para formar os “estados de coisas” que nos fornecem significado – por exemplo, “leão” e “sala” podem permitir o estado de coisas “o leão encontra-se na sala”. A realidade é espelhada ou pintada pela existência ou não existência destes estados de coisas, o que é determinado pela veracidade lógica (que se explica abaixo). A ciência trabalha com o significado e a linguagem precisa e estuda a existência ou não existência dos estados de coisas. A lógica apenas elimina contradições (este ser é um cão e não é um cão) e afirma tautologias (ou está sol ou não está sol). A primeira é sempre falsa; a segunda é sempre verdadeira, embora nada nos diga sobre a realidade – essa é a função da ciência e do senso comum. As contradições e as tautologias não são verdadeiras proposições porque não dizem nada, mas informam-nos sobre a verdadeira natureza da lógica.



3 – O pensamento é a pintura lógica dos factos.

Nota:

Wittgenstein usa a analogia entre uma pintura e a comunicação de uma mensagem, do pensamento à linguagem. A linguagem funciona em comunicação despertando imagens na mente. É um mecanismo semelhante à reconstituição de um crime. As proposições originam imagens de factos.

4 – O pensamento é a proposição significante.

Notas:

Um pensamento é uma proposição com um sentido. A totalidade das proposições é a linguagem. A linguagem é um pensamento disfarçado. No entanto, o pensamento e a linguagem devem possuir a mesma forma lógica ou a mesma pintura lógica. O que é uma “forma lógica”? Suponhamos o som ao vivo de uma sinfonia, o seu registo num gramofone ou o seu registo digital – como o seu resultado é o mesmo, partilham a mesma forma lógica que, no entanto, não pode ser representada; por outras palavras, um pensamento pode ser expresso por proposições, mas não pode ser mostrado. Do mesmo modo, uma pintura lógica informa-nos como as coisas são, porque partilha a forma lógica com a realidade.

Numa proposição, um pensamento encontra uma expressão que pode ser percebida pelos sentidos.4

Numa proposição, um nome é representativo de um objecto. Os objectos só podem ser nomeados.



5 – As proposições são funções veritativas das suas proposições elementares.

Nota: Não podemos pensar em nenhum objecto sem considerar a sua ligação com outros ou com a sua finalidade. Este “estar ligado” a um estado de coisas é condição necessária a que um objecto possa ser pensado.  Com as palavras acontece o mesmo (o nome é representativo de um objecto). As palavras adquirem o seu significado quando inseridas numa frase (proposição) e somente as frases podem ser consideradas verdadeiras ou falsas. Por exemplo, “cadeira” pode ter significados diferentes conforme a frase; pode significar um objecto onde nos sentamos, uma disciplina ou uma cátedra. Mas nada podemos dizer sobre a sua veracidade ou falsidade. Mas se dissermos, “está uma cadeira na casa de banho”, essa proposição pode ser verdadeira ou falsa.

Deste modo, existe uma correspondência entre o mundo real, o pensamento e a linguagem.

O que determina a veracidade ou falsidade das proposições é se a conexão das palavras na proposição é igual à conexão entre os objectos no mundo. Deve existir uma identidade entre a estrutura das coisas e a estrutura do pensamento. O que permite que a linguagem possa corresponder ao mundo (figure o mundo) é ambos possuirem a mesma forma lógica.5

No entanto tal não pode ser demonstrado, apenas mostrado. Algo que Chesterton também referiu sobre razão e fé: “Sabíamos que ao colocar a fé em questão acabaríamos por deitar a razão abaixo do seu trono. Ambas são processos demonstrativos que não podem ser demonstrados.”6

“Quando falamos sobre o mundo já estamos dentro da lógica. Para demonstrar a forma lógica, deveríamos poder-nos instalar com a proposição fora da lógica, i.e., fora do mundo. Teríamos que colocar-nos, como afirmavam os medievais, no ponto de vista de Deus, algo que é igualmente impossível, a menos que o próprio Deus no-lo revelasse.”1

6 – A fórmula geral de uma proposição veritativa é: [ p ¯ , ξ ¯ , N ( ξ ¯ ) ]. Esta é a forma geral de uma proposição.

Notas:

Um conectivo lógico é veritativo funcionalmente se o período final for uma função do valor veritativo das suas fases elementares. Por exemplo, consideremos o período: “A camélia é uma flor e a batata é um tubérculo.” A primeira frase é verdadeira porque a camélia é uma flor; a segunda frase é verdadeira porque a batata é um tubérculo. Portanto o período é uma proposição veritativa.

Contudo, nem sempre assim acontece em linguagem. Suponhamos que alguém diz: “O João diz que a Terra é plana, mas não acredita que ande um homem na Lua com um fardo às costas.” Então a primeira frase, “a Terra é plana”, é falsa; a segunda frase, “anda um homem na Lua com um fardo às costas”, também é falsa. No entanto, a introdução dos prefixos “João diz que” ou “não acredita”, altera o valor lógico do período resultante das duas frases, dando-lhe o valor de verdadeiro, mesmo que formado por duas frases de valor lógico falso. Neste caso, o conectivo lógico não é funcionalmente veritativo.

Daqui se deduz que uma proposição que comece como opinião de alguém é geralmente falsa. Este postulado junta mais exclusões à religião, à ética e à estética: a psicanálise, grande parte das teorias das chamadas ciências sociais e a especulação filosófica em geral. Foi por isso mesmo que Wittgenstein afirmou no final do Tractatus ter resolvido todos os problemas da filosofia.



7- Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen. "Sobre aquilo de que não podemos falar, o melhor é remetermo-nos ao silêncio".

Notas:

Fora das proposições da ciência natural, devemos manter-nos em silêncio. Ou seja, a filosofia apenas pode expressar proposições da ciência – é a expressão factual lógica das proposições. “A filosofia nada pode dizer sobre a forma lógica, porque a forma lógica não pode ser explicada, mas mostrada; e o que pode mostrado não pode ser dito.”

A totalidade do mundo e da linguagem é assunto do místico; à filosofia basta esclarecer a linguagem e ajudar à formulação de proposições claras.

O sentido ético tem que estar fora do mundo, porque tudo o que importa é acidental: o mundo não tem ordem, nem Ordenador; o mundo é acidental ou estocástico (novamente um postulado moderno). O que não é acidental, não pode estar dentro do mundo – as proposições da ética estão fora do mundo.

Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. O mundo e a vida são um.

Eu sou o meu mundo. Não existe tal coisa como o sujeito que pensa ou desenvolve ideias. Não existe "Eu". Não existe "Eu", porque eu não me posso pensar; a minha mente não pode ser o meu objecto.
Suponhamos que eu me olho ao espelho. “Eu” posso ver os meus olhos, mas posso ver o “Eu” que vê os meus olhos?
Suponhamos que eu digo: “Eu” vejo a minha mulher, mas posso ver o “Eu” que vê a minha mulher?
Posso separar um pensamento do “eu” pensante, sem ter que recorrer a um outro pensamento?
Portanto, não existe um “eu” que viva isolado no mundo, que veja e pense e confira sentido ao que vê e pensa – aqui a crítica ao método cartesiano de Descartes atinge o seu zénite. Pelo contrário, existe uma linguagem do pensamento que se inicia com “Eu”. Esse “eu” possui muitas experiências no mundo; é a minha experiência (a única verdade do solipsismo), mas isto não significa que esteja em minha posse, uma vez que não existe esse sujeito que a possua. Eu e o mundo coincidimos, no sentido em que o meu mundo, o mundo das minhas experiências é único.

Todas as proposições têm igual valor (e aqui o caminho da filosofia que segue a metodologia da ciência chega ao relativismo).



Com esta introdução ao Tractatus, abre-se um mundo novo na forma como vemos a linguagem. Por um lado, a linguagem não é algo que esteja fora do mundo, denominando-o apenas. A linguagem identifica-se com o mundo humano, na medida em que é expressão do próprio pensamento e não existe homem sem pensamento. A consciência de si e do mundo identifica-se com a linguagem. Deste modo, apenas considerando a existência humana, no princípio era o verbo. No entanto, encontra-se implícita uma outra noção: o universo é acidental e estocástico, se lhe aplicarmos a lógica positivista; não podemos afirmar ou negar a existência de um Ordenador ou Criador, porque tal está fora dos limites da linguagem e do mundo. Mas atenção, caso existisse um tal Ordenador, a sua vontade ou pensamento seria expresso pela linguagem. Deste modo, entende-se em linguagem religiosa (assunto para as Investigações Filosóficas, Blue Book e Culture and Value) a afirmação de São João: Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν, καὶ Θεός ἦν ὁ Λόγος, In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum.

Por outro lado, ficam expostos vários abusos de linguagem, sobretudo vindo daqueles que defendem a própria lógica positivista aplicada por Wittgenstein, mas não vislumbram as suas consequências e as descartam. Como exemplos, contam-se o uso da linguagem para se pronunciar contra a existência de Deus, a utilização de teorias não baseadas no método científico como linguagem científica, o que acontece muito no âmbito da psicologia e das ciências sociais, a utilização desmedida de “opinião”.
Como consequência da aplicação estrita dessa lógica positivista contam-se a exclusão de proposições éticas e estéticas e a inexistência do “eu”. Se a primeira mostra a insuficiência do método, uma vez que todo o homem faz juízos (razão por que o segundo Wittgenstein voltou à filosofia em 1929), a segunda é uma incisiva crítica a Descartes e ao seu racionalismo. Não é apenas a observação de que não existe um “eu” isolado pensante, mas também as afirmações de que os objectos só podem ser nomeados e a de que numa proposição o pensamento encontra uma expressão que pode ser percebida pelos sentidos. Os sentidos são a medida do mundo e são o próprio sujeito, não são instrumentos como o microscópio e o telescópio.  

Se se pode admitir que o Wittgenstein que conheceu Russell em Cambridge acreditava no valor em si deste método, é mais difícil de conceber que o místico Wittgenstein que regressou da guerra antes da publicação da obra tivesse a mesma convicção. Talvez por isso mesmo ele dissesse que o livro não era tanto um conteúdo, era mais uma escada para ajudar a pensar ou que a maioria das proposições nele descritas eram puro disparate. Parece óbvio tratar-se de uma clara demonstração do caminho onde leva a aplicação da lógica positivista e uma tentativa de separação das águas entre o que o lógico pode dizer e aquilo que deve calar.

A conjunção das suas duas proposições, a primeira, “O mundo é tudo o que importa”, com a última, "Daquilo de que não podemos falar, o melhor é remetermo-nos ao silêncio”, marca o desafio para pensar. A última proposição aponta para um mundo factual, mas a primeira, “o mundo é”, joga com o inefável e é uma premissa – aparentemente encontra-se aqui descrita a dualidade entre o que pode ser dito e o que apenas pode ser mostrado.

“Quanto mais o prego tiver entrado na cabeça, maior terá sido a sua utilidade; mas o que realmente importa é aquilo do qual só podemos permanecer em silêncio.”2 Wittgenstein calou-se pelo menos dez anos. Depois falou com mestria e deixou-nos a sua obra-prima.





António Campos



1 Tractatus Logico-Philosophicus, Kegan Paul, Trench, Trubner & CO., LTD., London, 1922. https://www.gutenberg.org/files/5740/5740-pdf.pdf.

2 John Heaton and Judy Groves. Wittgenstein for Beginners. Penguin Books, London. ISBN 1 874166 17 X.

3 Biletzki, Anat and Matar, Anat, "Ludwig Wittgenstein", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2016 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <https://plato.stanford.edu/archives/fall2016/entries/wittgenstein/>.

4 Tom Martin (University of Nebraska), American Chesterton Society, 24th G. K. Chesterton Conference, A Century of Heretics, St. Thomas University, St. Paul, Minnesota, 2005. Disponível no site da ACS.

5 Josué Cândido da Silva, Pedagogia & Comunicação, wittgenstein-e-a-figuracao-do-mundo.

6 Chesterton, Ortodoxia. Chesterton, Catholic Church and Conversion.


Notas finais sobre as alíneas 5 e 6 por David Pansera:

A filosofia deste "primeiro Wittgenstein", busca determinar a natureza em si da representação e daquilo que é representado, o mundo. Ele faz isso estabelecendo a "essência" da proposição. Ele identifica vários tipos de proposições que se diferenciam quanto à sua forma lógica. Entretanto, tais formas possíveis possuem algo em comum que é determinado a priori. Dada uma linguagem, as regras da sintaxe lógica dessa linguagem permitem que, ao juntarmos palavras, formemos proposições. A forma proposicional geral é a essência da proposição, isto é, as condições necessárias e suficientes para que algo seja uma proposição em qualquer linguagem, qualquer notação.

A alínea 5 diz respeito a certos "axiomas"; as proposições elementares de uma linguagem. Uma proposição elementar é um proposição de verdade de si mesma. Isso é a tese da extensionalidade de Wittgenstein.

Na alínea 6, Wittgenstein equaciona a forma proposicional usando a tese da extensionalidade. Na fórmula simplificada [a, x, N(x)], está especificada uma série de proposições. "a" é uma proposição inicial, x é um conjunto de proposições e N(x) é a negação de todas as proposições. Wittgenstein, dessa forma, admite o que é chamado de construtivismo lógico. Só é possível uma lógica que possa ser construída a partir de iterações de processos elementares. Isso entra em conflito com a existência de vários objetos da matemática moderna, uma vez que não podem ser obtidos através de métodos construtivistas.

O segundo Wittgenstein, em Investigações Filosóficas, negou a tese da extensionalidade, dizendo que ela caracteriza o cálculo proposicional e não a linguagem comum. Com a autocrítica que Wittgenstein faz ao Tratactus, é possível demonstrar que o Tratactus está, de uma forma confusa, dizendo que uma proposição é qualquer coisa que seja verdadeira ou falsa.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Wittgenstein Para Principiantes – Introdução: No Início Era o Verbo




Conhecer um homem implica analisar o seu pensamento e conduta; compreendê-lo
necessita conhecer a sua circunstância. Ludwig Josef Johann Wittgenstein (26 de Abril, 1889 – 29 de Abril, 1951) combina a característica complexidade alemã com a genialidade pura, por vezes na fronteira da sanidade. O mais novo de oito irmãos, nascido de uma das famílias mais ricas de Viena, exibe traços da ascendêndia judaica de seu pai Karl, convertido ao protestantismo, com o catolicismo de sua mãe “Poldy”. Os Carnegie da Áustria viviam num palácio, na actual Argentinergasse. Os fins-de-semana e férias eram repartidos entre a mansão nos arredores de Viena e a magnífica quinta no campo. Viena era uma das capitais culturais do mundo: da psicanálise à moderna arquitectura, do nacional-socialismo ao socialismo e sionismo, tudo passava pela Viena de fin de siècle.1



A casa dos Wittgenstein possuía sete pianos de cauda e era visitada regularmente por Brahms, Mahler e pelo jovem Pablo Casals. Educado em casa, num ambiente formal e distante, com perceptores e professores particulares, o jovem Ludwig exibia um talento prático, o que o colocava na óptica de seus pais como o menos intelectualmente dotado da prole. Concluiu a licenciatura em engenharia mecânica em Berlim e aos 19 anos vai para Manchester fazer uma pós-graduação em matemática, uma vez que se interessava por propulsores. Foi assim que começou a estudar os fundamentos da matemática. Escreveria um livro sobre os fundamentos da lógica e da matemática que mostraria a Gottlob Frege, o filósofo e matemático, que imediatamente o “despacharia” para Bertrand Russell, no Trinity College, Cambridge. Wittgenstein tinha 22 anos e era um “alemão” muito rico; Russell tinha quarenta e era um aristocrata inglês típico, herdeiro de uma família que enriquecera exponencialmente com a guerra do ópio, uma guerra em que as potências ocidentais humilharam a China.2 Acabara de escrever Principia Mathematica, um dos livros mais importantes e intragáveis da filosofia da lógica.3



Esta não é uma história vulgar de sucesso. Três dos quatro irmãos de Wittgenstein cometeriam suicídio. O fio de prata da vida e o fio de ouro da sanidade estiveram sempre em risco de ruptura na vida de Ludwig, mas a bilha de barro não quebrou. Desde a universidade, aos 17 anos, que o jovem Wittgenstein mantinha uma espécie de diário, onde anotava os seus pensamentos. A sua preocupação fundamental, talvez por recear o seu próprio intelecto, era a de manter sempre uma estreita conexão com a vida real: “O meu bloco de notas deve estar sempre pronto a passar a porta para a vida; e não ter que trepar para a luz como se tivesse que subir à cobertura de um celeiro ou descer à terra como se andasse na lua.”



Embora seja mais conhecida a influência de Russell em Wittgenstein, foi G. H. Moore, professor de filosofia no Trinity, quem primeiro notou a excentricidade do aluno austríaco e quem mais tarde o proporia para doutoramento, já após ter escrito o Tratactus Logico-Philosophicus. Russell ficou profundamente persuadido da genialidade de Wittgenstein após o final do primeiro ano em Cambridge: “Ele era, que eu tenha tido conhecimento, o exemplo mais perfeito de um génio como tradicionalmente concebido: apaixonado, profundo, intenso e dominante.” Wittgenstein aparecia na casa de Russell a meio da noite sem avisar, para discutir problemas de lógica ou simplesmente para deambular para trás e para a frente como uma fera enjaulada. No entanto, Russell viria desenvolver uma consideração filial por Wittgenstein, que não seria perturbada pelas críticas ferozes que Wittgenstein terá feito a um ensaio de Russell sobre teoria do conhecimento.



Entre os amigos que fez em Cambridge contam-se David Pinset, com quem manteve uma relação homossexual em 1912, e o economista J. M. Keynes, a quem dedicaria o Tratactus. No entanto, o feitio de Wittgenstein era algo que facilmente se consideraria insuportável. Em 1913, abandona Pinset e decide passar dois anos completamente só, na Noruega, para evitar a influência dos intelectuais de Cambridge. Convidado para ir à Noruega, Moore lembra-lhe a necessidade de obter o grau académico, para o qual não bastaria o seu trabalho Logik, mas também a necessidade de apresentar um prefácio e referências, conforme as regras da universidade. Wittgenstein responderia mais tarde a Moore numa carta crítica e desdenhosa. Não obteve a graduação e os dois homens não voltaram a falar-se até 1929. Embora Moore fosse um catedrático em Cambridge, Wittgenstein considerava-o como um exemplo gritante de como um medíocre pode chegar a um lugar de topo, e não hesitava em o usar como secretário enquanto ditava as suas notas. As características bem alemãs da busca pela pura consciência de si, o eu, o bem verdadeiro, encontravam-se marcadas em Wittgenstein. No Natal de 1913 escreve a Russell: “Como posso ser um lógico sem antes ser um ser humano? Porque a coisa mais importante é estar bem consigo próprio.”4



Em 1914 alistou-se como voluntário no exército austríaco na Primeira Grande Guerra. Encontrava-se persuadido que a proximidade com a morte faria dele um ser humano mais decente e julgava que não tinha o direito de viver se não fizesse um trabalho meritório. Assombrado pela maldição familiar, a ideia da morte permanecia sempre próxima na sua mente. Foi nesta altura que leu o Evangelho de Tolstoi (Uma Curta Exposição do Evangelho) e Os Irmãos Karamasov de Fiódor Doistoievski, do qual sabia várias passagens de cor, sobretudo envolvendo o stárets Zóssima que admirava particularmente. Pediu para ser colocado na frente russa, onde o exército austríaco sofria perdas humanas maciças: “Talvez a proximidade da morte me traga a luz da vida. Que Deus me ilumine. Sou um verme, mas pela mão de Deus torno-me um homem. Que Deus esteja comigo. Ámen.” Mais do que as medalhas por bravura que obteve, considerava o seu maior presente ter compreendido que todo o seu pensamento sobre lógica se relacionava com a absoluta necessidade de viver correctamente: “O meu trabalho ganhou amplitude, desde os fundamentos da lógica à essência do mundo.”

O ano de 1918 seria para ele um autêntico annus horribilis: a morte do seu tio Paul, o suicídio do seu irmão Kurt, a morte de Pinset e a recusa da publicação do Tractatus, cujo nome à altura era Der Satz (proposição ou frase, mas também "salto"). Prisioneiro de guerra, não aceitou a mediação da sua família e de Keynes para obter a sua libertação; recusou-a até que o último dos seus homens fosse libertado. É nesta altura que termina o Tractatus Logico-Philosophicus. Russell consideraria que Wittgenstein regressara da guerra muito mudado, asceta e místico. No final da guerra, Wittgenstein tinha-se tornado num dos homens mais ricos da Áustria ao herdar a fortuna de seu pai, que a colocara na América, em títulos de dívida americana. O pai morrera em 1913, mas teve a inteligência de entender as consequências da guerra que se avizinhava. Ludwig decide abdicar de tudo a favor da família e viver apenas dos seus rendimentos, começando a dar aulas como professor primário, do que desistiria em 1926, num mar de polémica e insucesso.







Todas as editoras recusaram a publicação do Tractatus, incluindo a imprensa da universidade de Cambridge. Em 1922, consegue a publicação com a ajuda de Moore, mas teve que abdicar dos direitos de autor. O livro incluía uma introdução de Russell, como imposição de Moore contra a vontade de Wittgenstein, uma vez que as relações com Russell  tinham gelado. Wittgenstein considerava que a filosofia de Russell era pura mecânica e que ele não tinha entendido o Tractatus no fundamental. Em breve, o livro seria um clássico.
Retorna a Cambridge em 1929. Como não possuía um título académico, trabalha como bolseiro. No final de 1929, obtém o seu doutoramento, num júri que incluía Moore e Russell. Moore, revelando que o juízo que Wittgenstein fizera sobre ele estava errado, escreve como nota de avaliação na tese (o Tractatus): “Do meu ponto de vista, trata-se de um trabalho genial, mas se eu estiver completamente enganado, pelo menos é bem mais do que se requere a uma tese de doutoramento.” Wittgenstein torna-se professor associado em Cambridge.

Em 1931 volta à Noruega com a sua noiva suíça, Marguerite, mas por passar grandes períodos de solidão e abandono, Marguerite parte após duas semanas e decide romper o noivado. De volta a Cambridge conhece Francis Skinner, um promissor estudante de matemática do Trinity, que sob a influência de Ludwig abandonaria os estudos para se tornar um simples mecânico de automóveis. Morreria de poliomielite em 1941. Em 1946, inicia outra relação homossexual com Ben Richards, estudante de medicina bastante mais novo, que manteria até final da sua vida. Desde 1939 que era catedrático em Cambridge, mas como começasse a guerra, considerou indigno dar aulas enquanto existisse uma guerra em curso. Cidadão britânico desde o Anschluss, decide ir trabalhar para o Guy’s hospital em 1941, durante o blitz. Em 1947, demite-se da cátedra, uma vez que queria escrever e considerava irrelevante dar aulas. Em 1949, já muito famoso, dá uma série de aulas nos Estados Unidos, vestido de forma andrajosa.




Não é apenas a sua filosofia da linguagem que fascina o leitor; a sua vida foi um verdadeiro romance, ou um filme, como hoje diríamos. Wittgenstein morreu a 29 de Abril de 1951, três dias após o seu aniversário. Sofria de cancro da próstata já há alguns anos. Em Fevereiro de 1951 desistiu da hormonoterapia e da radioterapia. O seu amigo Dr. Bevan e Mrs. Bevan convidaram-no para viver em sua casa os seus últimos dias. Em Março, a capacidade de escrever e a inspiração voltaram. Escreveria a última metade do livro On Certainty. Cumpriu-se assim a sua vontade expressa a seu amigo Paul Engelmann em 1925: "Gostava de morrer num momento de brilho!" A 28 de Abril o seu estado deteriora-se e Mrs. Bevan avisa os amigos. Wittgenstein é informado que os seus amigos vêm visitá-lo na manhã do dia seguinte. Perde a consciência a 29, antes de os amigos chegarem: Ben Richards, Elizabeth Anscombe, Yorick Smythies, Maurice O'Connor Drury e o dominicano frei Conrad Pepler. Pronuncia em inglês as suas últimas palavras: "Diga-lhes que tive uma vida maravilhosa!"5 Como tinha sido a sua vontade expressa  de que esperava que os seus amigos católicos rezassem por ele, Anscombe, Smythies e Pepler assim fizeram.


A sua obra-prima, Investigações Filosóficas, sairia postumamente em 1953, o Blue Book em 1958, Culture and Value em 1977. Foi sempre uma espécie de católico adversativo (nas suas palavras, “com dificuldade em ajoelhar”), embora fosse um amigo confesso de Elisabeth Anscombe, a professora católica que lhe sucederia na cátedra de filosofia em Cambridge, e tivesse o dominicano Conrad Pepler como seu guia espiritual. Terá sido também um homem em exílio e, simultaneamente um pensador em exílio da zeitgeist moderna. Mas terá sido o seu amigo Paul Engelmann, quem lhe fez um melhor retrato da alma, num poema que muito o impressionou, dando um bom retrato do seu tipo de religiosidade, da noção de uma missão na vida, de julgamento, de autoridade ética e espiritual última, do primeiro momento do orgulho ao momento final do arrependimento:6


"Licitada pela sombra do anjo da morte
Voa a alma, pelos abismos da noite
E ele leva-a ao Juiz.

Pela noite de terror, pela corrupção mais perversa
Olho brilhante em olho brilhante, debatem-se:
“Sois culpada? Confessais?”

Não tenho culpa, não possuo culpa
Por mor de meu Criador que me fez
O meu Criador assume a culpa.

Precipitado no abismo mais profundo,
Envolvido por anéis de fogo ardente
Arde a alma e arde seu orgulho.

E a alma no meio do fogo ardente do Inferno
Exclama “E Aquele ali, tem prazer
E com os seus anjos de mim troça.

Se O pudesse ver, eu poupá-Lo-ia,
Nem uma única faísca O atormentaria
Como eu sofro livre de culpa.”

Eis que um ribombar de asas descendo
Voa para a fornalha do inferno
E convida a alma a seguir.

Conduzem-na ao mais alto dos céus,
Onde anjos enlutados e velados,
Se reúnem em volta de um trono vazio.

“Falai, onde está Ele, anjos velados,
Ele evita-me, esconde-se?”
“Não, Ele arde no Inferno abrasador.”

Então a alma acorda da sua visão
Foi um acordar profundo
Do sonho que ela sonhara no Inferno.

E entre o furioso fogo do inferno
Canta a alma: “O que me queima e cauteriza
É o amor de Deus, porque eu pequei.”

Irrompe um ribombar de todos os Céus
As minhas mãos são agarradas por anjos,
E eles clamam: «Deus é Todo-poderoso!»”



António Campos




Referências:






1 John Heaton and Judy Groves. Wittgenstein for Beginners. Penguin Books, London. ISBN 1 874166 17 X.


2 Armindo Abreu. O Poder Secreto. Kranion Editorial, 2005, pp. 245.


3 Biletzki, Anat and Matar, Anat, "Ludwig Wittgenstein", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2016 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <https://plato.stanford.edu/archives/fall2016/entries/wittgenstein/>.

4 https://en.wikipedia.org/wiki/Ludwig_Wittgenstein

5 James C. Klagge, Wittgenstein in Exile. Cambridge, MIT Press, 2011.

6 Ann Guinee, John Henry Newman and Ludwig Wittgenstein: On Certainty and Faith. Mary Immaculate College, University of Limerick, 2013.






sábado, 14 de outubro de 2017

O Sacerdote da Primavera




Sempre me fascinou o tempo e o silêncio. 


 O tempo na filosofia ocidental encontra-se associado a três ideias fundamentais: mudança, progresso e envelhecimento. 
Eu gostaria de pensar em três ideias menos inquietantes: paciência, memória e esperança. 
As pessoas precisam de tempo: tempo para se desenvolverem, tempo  para se encontrarem. Desse modo deveremos ser, como diz o Novo Testamento, lentos a julgar. 
Quanto à esperança, não me refiro aqui à esperança que o tempo traz para os crentes. Prefiro falar do tempo como curativo. Por um lado, da  forma como sara as nossas feridas, como problemas  que nos pareceram gigantescos se resolvem e se esfumam; por outro, da possibilidade que o tempo dá para o perdão. Como pode evitar que reviver uma dor do passado no presente seja fazer outra dor e sofrer novamente, como dizia Shakespeare. Dessa forma, pacifica e sara.

Relativamente à memória, não seríamos o que somos se não fôssemos passageiros no comboio da História. Se não integrássemos o ontem, estaríamos sempre entre desconhecidos e sem casa.
Natal de 1999, Kowloon. Algures entre Tsim Sha Tsui e Yau Ma Tei. A minha mente é assaltada pela miríade de caracteres chineses suspensos e sobrepostos como reclamos luminosos. Esse ruído gráfico e a estranha ausência pública do presépio, despertam-me para o valor da paz e do silêncio. Encontro em Macau a fachada da Catedral de São Paulo, réplica da Sé Nova de Coimbra, construída pelos jesuítas. Uma igreja sem corpo, apenas face, numa cidade que se chama A Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.

Silêncio, silens, estar sossegado, em repouso. O silêncio não é um nada; é um encontro. Se falas constantemente, não pensas; se sempre rebates um argumento, alimentas uma discussão sem fim. A um argumento pode sempre opor-se outro argumento, dizia Dostoiévski. Como pesam as palavras daqueles que  as usam com parcimónia!

O silêncio não é um nada, é um encontro: connosco e com o intangível. Com aquilo que nos fala da mesma forma que a luz do sol; que ilumina a nossa vida com a marca da bondade. Um rosto, uma ruga, um olhar, um gesto, deixam a marca de um botão de rosa. Mas se o silêncio é um encontro com a externalidade intangível, o silêncio também é um encontro com  o intangível em si próprio. Eu acordei na minha circunstância e possuo facetas que não domino nem conheço. Diz Jeremias e o salmista (139), que “antes mesmo de te formar no ventre materno Eu te escolhi”. Não escolhi a minha família, o meu nome, o meu país, o meu corpo, não foi minha decisão nascer como testemunha o meu cordão umbilical. Todas as tentativas de me conhecer, são aproximações narcísicas, que o silêncio delimita e reconcilia. 
Não é verdade que eu vejo o argueiro no olho do outro mas não vejo a trave no meu próprio olho? Ou como dizia Chesterton, "(Senhor) Dai-me olhos miraculosos para ver os meus olhos, esses espelhos que rolam vivos em mim..."



Existe um personagem  que integra em si mesmo o tempo e o silêncio, a eternidade e a ausência de réplica, o perdão e a paz. Esse personagem arrebatador, de silêncios desconcertantes, anunciado por todos os profetas, é o único sobrevivente de ecos semelhantes na História. Sobre ele construiu-se uma poderosa civilização e cultura. Ele que acalmou o vento, possui uma singular integração nas estações do ano. Com elas marcha, como numa peregrinação. Nascido no Natal, eis o Sacerdote da Primavera:

"O sol apareceu e o ar amainou  no Domingo de Páscoa. Trata-se de uma claridade intrigante que traz um fôlego não apenas de novidade, mas também de revolução. Existem dois grandes exércitos do intelecto humano que se degladiarão até ao fim em torno de uma questão vital:
Deve enaltecer-se a Páscoa por ela se encaixar na Primavera ou deve enaltecer-se a Primavera por ela se encaixar na Páscoa?

Na verdade, as únicas duas coisas que satisfazem a alma humana são uma pessoa e uma história; e mesmo a história tem que ser acerca de uma pessoa.

Existem na realidade apetites bastante voluptuosos e divertimento nas meras abstracções - como a matemática, a lógica ou o xadrez. Mas estes prazeres da mente são como os prazeres do corpo: são meros prazeres, embora possam ser intensos, nunca, por uma mera gradação de si próprios, poderão conduzir à felicidade.

Um homem que está para ser enforcado pode apreciar o pequeno-almoço, sobretudo se for o seu pequeno-almoço favorito; do mesmo modo, pode apreciar discutir com o confessor um dado argumento herético, sobretudo se constar da sua heresia favorita. Mas o modo como ele aprecia cada um deles não depende intrinsecamente deles; pelo contrário, depende da sua atitude perante um acontecimento subsequente.

E é esse evento que é realmente interessante para a alma; porque é o fim de uma história e, como alguns defendem, o fim de uma pessoa.




Esta verdade é tão simples que está, como outras, vedada aos nossos cientistas. É aqui que eles se enganam redondamente, não apenas sobre a religião verdadeira, mas também sobre as falsas religiões. A sua concepção da mitologia é mais mitológica que o próprio mito.

Existe um tipo de idiotia que encanta o discurso das pessoas modernas, mesmo quando estão acordadas e que me irrita profundamente. Derivou da ciência do século XIX, especialmente no que concerne ao estudo de mitos e religiões. O fragmento de conversa da treta a que me refiro flui do seguinte modo: "Este deus realmente simboliza o sol" ou "Apolo matar a pitão significa que o sol acaba com o inverno" ou "Um rei moribundo numa batalha a ocidente é um símbolo do sol que se põe a oeste.”

Um deus nunca foi um hieróglifo ou símbolo do sol! Era o sol que era um hieróglifo a representar o deus. Nenhum ser humano foi realmente tão contra-natura que adorasse a natureza.

Nós, seres humanos, nunca adorámos a Natureza, por uma razão muito simples. Porque nós somos seres sobrenaturais. Nós imprimimos a nossa imagem na natureza, tal como Deus imprimiu a Sua imagem sobre nós. Nós ordenámos ao sol enorme que permanecesse quieto e imprimimo-lo nos nossos escudos, tratando uma estrela do céu como se fosse uma estrela do mar. E, quando existiam poderes na natureza que não conseguíamos controlar, concebemos enormes seres antropomórficos que os controlassem. Júpiter não significa a trovoada. A trovoada significa a marcha e a vitória de Júpiter. Neptuno não significa o mar; pelo contrário, o mar é sua propriedade, foi ele que o fez.



Reafirmo que ninguém pode compreender qualquer mito, até encontrar um que não seja um mito. Nabos fantasmagóricos nada significam, se não existirem fantasmas. Notas de banco falsas nada significam, a menos que existam notas verdadeiras.
Deuses pagãos nada significam e nada podem significar para aqueles de nós que negam o Deus cristão. Sempre que se conceba um deus, mesmo que um deus falso, o Universo encontra o seu verdadeiro lugar, i. e., o segundo lugar. Quando se trata do verdadeiro Deus, o Universo ajoelha-se, oferecendo flores na primavera e fogueiras no inverno. "O meu amor é como uma rosa vermelha, uma rubra rosa" não significa que o poeta esteja a galantear as rosas usando alegoricamente a imagem de uma jovem senhora. "O meu amor é um medronho” não significa que o autor é um botânico tão deliciado com um medronheiro que se sinta compelido a dizer que o ama. "Aquele que fez a lua e governa o meu céu" não significa que Julieta tenha insinuado que Romeu é o responsável por a lua ser redonda. "Cristo é o sol da Páscoa" não significa que o orante se esteja a dirigir ao sol sob a simbologia de Cristo. Uma deusa ou um deus podem vestir-se de primavera ou de verão; mas o corpo é mais do que roupas.

A religião toma quase com ligeireza o vestido da natureza; e, na verdade, a Cristandade deu-se tão bem com as neves (snow) do Natal como com as campaínhas--de-inverno da primavera (flores do género Galanthus, em inglês snow-drops).

E quando olho para os campos banhados de sol, sinto no âmago dos meus ossos que a minha alegria não reside apenas na primavera, porque a primavera, estando sempre condenada a retornar, seria sempre triste. Existe algo ou alguém que lá caminha, para ser coroado de flores: e o meu deleite reside numa promessa anunciada e na ressurreição dos mortos."

(Entre aspas, The Priest of Spring de G. K. Chesterton).





António Campos 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A S. Miguel em tempo de paz






Miguel, Miguel: Estrela da Manhã,
Miguel dos Exércitos do Senhor,
Apertai a vossa mão sobre a espada embainhada, Miguel,
Dobrada e apertada sobre o punho, Miguel,
Sob a plenitude da Vossa alva pendente,
Cinge-nos com o segredo da espada.



Quando o mundo fendeu por um escárnio,
Deixando no céu uma cicatriz para sempre,
Ergueste-vos contra o Horror nas Alturas,
Precipitando o poderoso que olhou sobranceiro para o Altíssimo:
Removendo do sétimo céu o inferno da mania
Desde o sétimo céu para um mar de trevas ardente:
Vós que num trovão atirastes o Dragão
Sabeis em que silêncio a Serpente pode voltar.





Precipitando-se pelo universo a vasta noite cai
(Miguel, Miguel: Estrela da Manhã!)
Do fundo do universo clamam as calmas profundas
(Miguel, Miguel: Miguel da Espada!)
Não nos deixeis perder nos mares do esquecimento,
No sinal deixado há muito pelo furor e pela petulância
No santo e imenso sempre eterno silêncio
No princípio era o Verbo.





Quando dos abismos de um inaudito Deus agonizante
Anjos e demónios que tudo fazem menos morrer
Vendo-O cair sem o poder seguir,
Vendo-O subir sem poder voar,
Mão na espada, Vossas legiões em prontidão
Esperando pelo Tetelestai* e a aclamação,
Espadas que O saúdam morto e Eterno
Deus acima de Deus e maior do que o Seu Nome.



Rodeando-nos e cobrindo-nos frias ideias rastejantes
(Miguel, Miguel: Miguel do grito de guerra!)
Rodeando-nos e por baixo de nós o mundo apinhado dorme
(Miguel, Miguel: Miguel da Carga!)
Guardai-nos o Verbo; aconchegante e confiável
Acima da honra e da lâmina polida
Delicado como um cabelo e tenso como uma corda de harpa
Pronto como quando silva rumo ao alvo.





Aquele que nos deu a paz; não como o mundo a dá:
Aquele que nos deu a lei; não como a dos escribas:
Será ele amolecido pelo compromisso das cidades
Calando com a usura; manso com o suborno?
Aqueles que nos desencorajam, dizendo que a espada partiu,
Quebram os homens pela fome, atam-lhes a mãos com o ouro,
Vendem-nos como ovelhas; mas ele conhece a venda
Pois Ele foi mais do que assassinado. Ele foi vendido.



Miguel, Miguel: Miguel da Convocação,
Miguel da marcha pelas montanhas do Senhor,
Comandai o mundo e purificai-o da podridão e da revolta
Prevalecei sobre o mundo até que ele acalme:
Decretai neste mundo perdido
Que o verbo prevalece.**








* Estar consumado, consumação.
** Palavra
G. K. Chesterton

Tradução idiomática: António Campos