“O
colapso da filosofia germânica ocorre sempre no começo dos argumentos, mais do
que no desenvolvimento e na conclusão”, G. K. Chesterton6
Este livro23 publicado em 1781 não teve
sucesso e Kant sentiu-se na necessidade de
dele escrever um resumo, em forma de
introdução, menos labiríntico, dois anos depois: Prolegómenos de Toda a Metafísica Futura (1783). Para Kant, a
filosofia cessa a dimensão metafísica e passa a ser “a ciência da relação de
todo o conhecimento com os fins essenciais da razão humana” ou “o amor que o
ser razoável tem pelos fins supremos da razão humana.” Trocado por miúdos, o
conhecimento torna-se apenas subjectivo e relativo a cada mente humana, é
essencialmente relativo e imanentista.
Toda a percepção entra em formas que são inatas,
naquilo a que Kant chama Imaginação
(formas de sensibilidade: Espaço e Tempo) e naquilo a que Kant chama o Entendimento (formas do entendimento ou
categorias)24, tal como a água ao entrar em recipientes diferentes
adopta a forma de cada um dos recipientes. Espaço e Tempo são independentes
entre si, um como forma de sensibilidade “interna”, outro como forma de
sensibilidade “externa”.
O sujeito é o construtor do conhecimento, logo espaço e tempo não são propriedades do objecto, mas sim do sujeito. Sendo assim, nós é que colocamos espaço e tempo nas imagens que efectuamos das coisas, i.e., nos fenómenos. Na continuação da análise ao problema do conhecimento, consideramos agora a questão da definição de Espaço e Tempo.
Para Kant, os conceitos de espaço e tempo não
residem na natureza, mas dentro da nossa mente. São inatos e imanentes, vêm “de
dentro”.
Como podem, a noção de espaço e tempo e as próprias
categorias, ser universais e necessárias, a
priori, quando todas as mentes humanas diferem imenso entre elas? A
orientação no próprio espaço difere imenso entre as pessoas e ao longo da vida.
Porque é que uns vêem “coordenadas” no espaço que outros não vêem? E se dentro
do mesmo sujeito, varia ao longo da vida, não se aprende, não tem algo de
empírico?
Claro que esta formulação levanta uma objecção
séria: se o Espaço e o Tempo só existem dentro e dependentes do homem e nunca
na natureza em si, se a ciência nos revela que a origem do Universo é anterior
ao homem, como poderiam existir o espaço e o tempo antes que houvesse homem?
Citando o livro de Job (que Kant apreciava
particularmente): “Onde estavas tu quando lancei os fundamentos da Terra?”25
Outra objecção prende-se com a afirmação de Kant de
que interpretamos o tempo como uma sucessão, mas que tal nada tem a ver com a
propriedade das coisas que observamos, mas apenas com nós próprios. O que Kant
não explica é como percebemos a diferença de umas coisas nessa sucessão e não
percebemos a diferença de outras. Por exemplo um rosto altera-se com o passar
do tempo, mas numa rocha não percebemos a mesma alteração. Não se compreende a
diferença se afirmarmos, como Kant, que não sabemos se existe nas coisas uma
sucessão real26.
Para Kant é impossível imaginar o infinito e o
vazio. Após a exploração espacial e a formulação da teoria do Big Bang, nós não
só sabemos que o vazio existe, como sabemos que uma quantidade finita de
matéria e energia se expande num espaço vazio infinito. Portanto, temos uma
noção empírica quer do infinito quer do vazio.
Temos a representação matemática do vazio, 0 ou { }, e do infinito, ∞ . E para Kant são válidos os conhecimentos, sobretudo
matemáticos, que possuímos na nossa mente, os chamados juízos a priori.
Mas se o espaço e o tempo parecem estar ligados no
mundo macroscópico com o Big Bang, o que dizer do mundo ultraestrutural? No
mundo subatómico, com o princípio da incerteza de Heisenberg, demonstra-se que
espaço e tempo estão intrinsecamente relacionados, por meio da velocidade, e que
tal interfere com a possibilidade de localização espacial.
Outro exemplo: a constituição da matéria implica
movimento das suas partículas, ou seja, espaço percorrido por unidade de tempo.
Quanto maior a energia, maior essa agitação. Não existe matéria “parada”. Sabe-se
que o vazio inimaginável para Kant, é o maior constituinte da matéria: à escala,
a distância entre dois átomos adjacentes equivale a uma distância de 30 Km
entre dois indivíduos.
Na verdade, nós somos essencialmente vazios.
E pela conversibilidade
entre matéria e energia, E=mc2 (a chamada equação da destruição), a
energia é apenas a forma que a matéria assume ou vice-versa, m=E/c2
(também chamada a equação da criação).
Então porque Kant afirma ostensivamente que ao
homem não é dado imaginar o infinito e o vazio? A resposta só pode ser uma:
para contrariar o conceito metafísico de espaço e tempo como condição da
existência das coisas, o conceito metafísico de que espaço e tempo são conhecidos
a partir do objecto, o conceito metafísico de que espaço e tempo estão para
além do homem e que, para eles, também existe uma causa primeira, como a
própria ciência postula com a Teoria do Big Bang.
Permanece a ideia de que Kant não seguiu o caminho
do cientista ou do livre pensador, que a partir de dados constrói conclusões;
fica a ideia deprimente de que Kant partiu de premissas prévias, isto é, de que
é necessário negar a metafísica para se ser racional.
Se a mente humana passa a ser a dimensão máxima do
conhecimento, ignora-se a variabilidade subjectiva, a natureza particulada do
real, representada por cada mente humana em particular e pelo conjunto das
mentes humanas. Na tentativa de arranjar uma certeza absoluta, Kant diminui a
sensibilidade da sua teorização para tentar ganhar especificidade. O erro de
análise em que incorre é o de aumentar o número falsos negativos- haverá muita
coisa que fica por detectar.
A razão humana não é autónoma. Ela não só depende
do sujeito como do contexto cultural e histórico. A própria mente de Kant
estava condicionada pelos acontecimentos da Revolução Americana e Francesa,
pelos postulados de Descartes e de JJ Rousseau, pelo ambiente político e social
na Prússia, por Frederico, o Grande, e Voltaire, pelo empirismo e o
racionalismo, pelo mecanicismo de Newton.
Na verdade, estava longe de se supor que existiriam
formulações da ciência que estão para além da mecânica clássica de Newton, como
a teoria quântica e a teoria da relatividade. Os contemporâneos de Kant (e isto
demonstra como a mente humana é escrava do seu tempo) pensavam que todas as
descobertas físicas apenas se somariam ao edifício de Newton e nada existiria
fora do seu âmbito. É curioso ser a ciência a revelar a insuficiência do
pensamento de Kant.
Kant parte desta crença de base, o cepticismo, para
desenvolver a noção de três juízos27, cuja finalidade fundamental é
excluir uma noção cognoscível da metafísica ou da existência de Deus:
- Os juízos analíticos, a priori: são compostos por noções evidentes que não resultam da
experiência e em que o predicado (isto é, a qualidade do sujeito) nada
acrescenta ao sujeito. Por exemplo, o triângulo tem três ângulos ou todo o
efeito tem uma causa. Kant exclui desta zona de evidência qualquer conceito
moral ou qualquer noção de existência transcendental. É o domínio do Espaço e
da Geometria. Mas Kant não pode incluir neste conceito a geometria não
euclidiana28.
- Os juízos sintéticos a posteriori: decorrem da experiência. Por exemplo, a neve é branca
ou todas as pessoas nesta casa são mulheres. Apesar de resultarem da
experiência, Kant afirma que estes juízos não têm validade científica, porque
se podem modificar com o tempo. Esta afirmação ignora que os conceitos científicos também se modificam com o tempo.
Esta é uma refutação forte contra a própria
existência autónoma dos juízos sintéticos a priori.
-Os juízos sintéticos a priori: Kant diz que se estes juízos não existissem não
poderíamos falar de conhecimento científico. Ou seja, todo o conhecimento
científico, para Kant o verdadeiro conhecimento, é deste tipo. Curiosamente
muitos duvidam da sua existência e afirmam que nesta existência assenta toda a
construção kanteana. Na verdade Kant tem a noção de que o conhecimento
científico se adquire por experiência, mas a experiência é, para Kant, não
universal- Kant mistura a experiência subjectiva, pessoal, empírica, com a
experiência obtida pelo método científico - daí a sua conclusão que o
conhecimento obtido pela experiência não é universal. Ele ter-se-ia que somar
ao edifício científico mecanicista Newtoniano, constituindo assim o banco de
dados dos juízos sintéticos a priori.
Infelizmente para Kant, a ciência não se limita a
somar. A ciência destrói conceitos anteriores e está constantemente a refazer.
Além disso, como o demonstraram a teoria quântica e a teoria da relatividade, a
ciência encerra em si um grande grau de incerteza. Uma vez que a teoria da
relatividade e a teoria quântica encerram algumas contradições mutuamente
exclusivas, elas retratam apenas dois modos diferentes de observar o ambiente
físico. Provavelmente, ambas estarão certas, mas pode perfeitamente supor-se que
ambas estarão erradas.
Ainda sobre os juízos sintéticos à priori, Kant dá
o exemplo de “a linha recta é o caminho mais curto entre dois pontos”. A sua
justificação é a de que “mais curto” (quantidade) não depende do conceito de “linha
recta”(qualidade); que “mais curto” acrescenta algo a linha recta; não depende
da experiência; é reconhecido como universal e necessário, ou seja, verdadeiro
para todos os homens.
Mas será mesmo assim?
- Mais curto pode não ser algo de quantitativo,
pode ser uma qualidade, um comparativo. Por exemplo, um homem mais curto do que
outro pode perfeitamente ter 1,80m (desde que o outro meça por ex. 1,85m).
- O caminho mais curto entre dois pontos pode nada
acrescentar a “linha recta”, na medida em que, por definição, a linha recta é o
caminho mais curto entre dois pontos.
Outro exemplo é que Kant atribuía aos teoremas o
carácter de juízo sintético a priori,
mas todos sabem que os matemáticos avançam segundo princípio da
contradição.
E será que o conhecimento científico não avança com
base na experiência, sendo sintético a posteriori?
Tomemos a proposição: “O caminho mais curto entre
dois pontos é uma linha recta.” Hoje, com base na experiência, estamos em
condições de afirmar que mais frequentemente no universo, em virtude do
conceito de massa e de campo, o caminho mais curto entre dois pontos é, de facto,
uma linha curva. Outro conceito, é de que o caminho mais curto entre dois
pontos, quando um deles se desloca no espaço, é de facto uma linha parabólica.
Na verdade, verifica-se, hoje em dia, uma recusa
geral em considerar as proposições geométricas como verdades sintéticas a priori28.
A dúvida: fica a ideia que o conceito de juízo
sintético a priori foi construído
propositadamente para encaixar a metafísica e a ideia de Deus, transformando a
metafísica numa imagem apenas interna ao homem e dele dependente, o que encerra
em si uma outra antinomia.
“Se
desejamos pensar bem, temos que procurar conhecer a verdade, quer dizer, a
realidade das coisas. De que serve discorrer com subtileza, ou com profundidade
aparente, se o pensamento não é conforme à realidade? Um simples lavrador, um
modesto artesão, que conhecem bem os objectos da sua profissão, pensam e falam
melhor sobre eles que um filósofo presunçoso, que, em elevados conceitos e
palavras altissonantes, lhes quer dar lições sobre aquilo que ele não entende”,
Jaime Balmes29.
António Campos
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23 I. Kant, Crítica
da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, 4ª ed., 2001.
24 Na primeira secção
da crítica da razão pura, A Estética Transcendental, que significa a sensação
dos númenos, Kant deixa bem claro de que não se preocupa com o que os dados podem
ser nem com o que representam. Apenas se preocupa com a sua forma, como são
formados na mente humana. Aliás, fruto da sua noção de que não existe o
conceito de presença, o objecto em si ou númeno pode muito bem não existir e,
desse modo, a imagem ou representação pode, de facto, representar o objecto ou
ser ela própria o objecto, isto é, existir sem aquilo que deveria representar-
Kant oscila entre a afirmação de que o mundo numenal “é” ou de que “não é”. Na
verdade, fica-se pela afirmação de que nada se pode dizer sobre o mundo
numenal- a sua influência empirista não desaparece de todo e a formulação de
que tudo o que conhecemos pode ser virtual, uma ilusão, não é eliminada totalmente
do seu raciocínio.
Kant denomina a percepção como imaginação e o
reconhecimento como entendimento, como se os dados entrassem em prateleiras
pré-formatadas na mente como a água entra num recipiente adoptando a forma do
recipiente, as formas:
Formas da sensibilidade: Espaço e Tempo
Formas do entendimento: Categorias
[substância (homem), quantidade (1,80m), qualidade
(negro), relação (triplo), lugar (casa- mas casa pode cair em substância e Kant
não justifica a antinomia), tempo (hoje), posição (erecto), posse (tem camisa),
acção (corre), passividade (é cronometrado)].
Estas formas a priori alteram o dado recebido de
forma que o conhecimento recebido não é o da coisa em si, mas o resultado do
que o sujeito captou da coisa mais o que o sujeito colocou na coisa.
25 Job, 38, 4. Bíblia
Sagrada, Difusora Bíblica (Missionários Capuchinhos), 9ª ed., Lisboa, 1981.
26 Existe algo da
nossa experiência com essas características, i.e., em que a realidade não está
nas coisas mas em nós, que pode ser usado como refutação simples: o mundo
onírico. Nos sonhos, as imagens da nossa vida real são tomadas como
objecto; objecto para as imagens dos sonhos. Mas a distinção entre sono e
vigília assenta em pressupostos:
-a
continuidade temporal (presente apenas na vigília),
-a
universalidade (alguém me viu ontem a jantar, mas ninguém sabe o que eu sonhei),
-o
nexo causal ou princípio causa-efeito (só nos sonhos eu nunca morro),
-o
princípio da não contradição (só nos sonhos posso ser simultaneamente solteiro e casado),
-a
localização no espaço e no tempo (se o espaço e o tempo apenas existissem
dentro da nossa cabeça, por que razão nos sonhos não existe continuidade
espácio-temporal, uma vez que vêm “de dentro”?).
Será um exagero afirmar que, por vezes, estes
filósofos sonham acordados?
27 Carta a Marcus
Herz, Fevereiro de 1772.
Kant explica:
1- Ser casado significa ser não solteiro, ou seja,
o efeito (ser casado) está contido na causa (ser não solteiro), é um juízo
(analítico) a priori.
2- Mas no exemplo de o João é casado, o predicado
(a qualidade ou característica) já não está contido no sujeito, pois nem todos
os Joões são casados. É um juízo sintético a
posteriori.
3- Os juízos sintéticos a priori devem ser rigorosamente independentes da experiência. Dá
como exemplo os juízos matemáticos, 2+3=5. O cinco encontra-se ligado ao 2
necessariamente pela operação + e pelo número 3. São universais e necessários e
independem da experiência. Kant afirma ser este o domínio da matemática, da
física e da metafísica.
a) É muito discutível que a álgebra e o cálculo matemático
não resultem da experiência. A invenção do zero pelos árabes, ou, mais correctamente, pelos persas, é um exemplo elucidativo.
b) A operação exemplificada é universal e
necessária porque foi efectuada com números ímpares. Vejamos o caso dos números
pares, 2+2=4. Será que 4 se relaciona com o número dois necessariamente pela
operação +? Não. Também a operação x os relaciona do mesmo modo. Pode
argumentar-se que a multiplicação é, na verdade uma adição sucessiva de
parcelas semelhantes. É verdade, mas implica um conceito adicional.
28 Júlio Esteves. O
Papel da Intuição e dos Conceitos nas Teorias Kanteanas da Geometria. Studia Kantiana 14 (2013):34-54.







