domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Entomologismo de Chesterton e o Indiferentismo


Diz-nos Chesterton que a ciência médica se contenta com o corpo humano normal e apenas procura recompô-lo.
Inversamente, a ciência social está altamente descontente com a alma humana normal e tem um sortido completo de almas fantasiadas para vender. Oferece curas que outros homens consideram doenças ainda piores e oferece ideais de saúde que outros se obstinam em considerar estados patológicos.
Os velhos moralistas contemplavam o mundo animal e viam nele o símbolo das virtudes do homem. A formiga era o símbolo da indústria, o leão da coragem, o pelicano da caridade e a cotovia da pontualidade.
No nosso tempo, porém, inúmeros homens inteligentes olham para o mundo animal de baixo para cima, em sentido misto admirativo e de inferioridade. No caso particular dos insectos, admiram a sua “espiritualidade colectiva”, concluindo que vivem apenas para qualquer coisa a que chamam “a alma da colmeia”. Os mais ortodoxos preferem as formigas às abelhas porque são unicromáticas, mais monótonas, operárias dedicadas, soldados ferozes, sem vontade própria...escravas.

Chesterton em “Os Disparates do Mundo”, Ed Diel 2009:
“Entre as não menores centenas de provas dessa vaga insectolatria, estão as correntes encomiásticas despejadas pela gente moderna sobre uma enérgica nação do Extremo Oriente, da qual se diz ser o Patriotismo a sua única religião, ou, por outras palavras, que vive apenas para a Alma da Colmeia.

Sempre que, de longe em longe, através dos séculos, a Cristandade enfraquece, se torna mórbida ou cética, a misteriosa Ásia começa a deslocar contra nós as suas confusas populações, desviando-as para o Ocidente em sombrio movimento de massas. Sempre tais invasões foram comparadas a pragas de piolhos ou de incessantes nuvens de gafanhotos. Os exércitos orientais eram, na verdade, bem semelhantes a bandos de insectos.
Pela sua cega e encarniçada fúria destrutiva, pelo negro niilismo do aspecto pessoal, pela odiosa indiferença da vida e do amor do indivíduo, pelo crédito atribuído basicamente ao mero número, pela sua coragem pessimista e pelo seu patriotismo ateu, os cavaleiros devastadores do Oriente são, verdadeiramente, pares de todas as pestes da terra. Ora nunca, julgo eu, até hoje, os cristãos que chamavam aos turcos gafanhotos, pensavam estar assim a elogiá-los.
Agora, pela primeira vez, adoramos o que receamos. Descobrimos com veneração esse vulto enorme e vago que alastra da Ásia, mal vislumbrado por entre místicas nuvens de aladas criaturas suspensas sobre terras devastadas, cortando de tropel os céus como o trovão, encobrindo-o como a chuva: Belzebu, Senhor das Moscas.

Na nuvem confusa de moscas e abelhas, a ideia humana de família vai-se atenuando como se, finalmente, desaparecesse. A colmeia tornou-se maior do que a casa, as vespas destroem os seus captores, o que os gafanhotos deixaram comeram-no as lagartas; e a casinha e o quintal do nosso amigo Silva vão por mau caminho.”


Estará o visionário de Beaconsfield a delirar? Ou o nosso tempo faz a prova real das suas palavras, consumando-as? Scott Hahn e John Salsa são dois dos espíritos mais brilhantes chamados, no nosso tempo, do deserto uivante para o jardim que é a Igreja Católica. Ouçamos John Salsa no seu extraordinário “Masonry Unmasked” sobre o indiferentismo como ideologia e vejamo-nos bem ao espelho, nós, os católicos:













Muitos cristãos maçons neste País nunca consideram a questão da indiferença. Isto não é surpreendente, uma vez que o indiferentismo é a religião da cultura pop americana, que é largamente seguida. Nós vivemos numa terra de liberdade e tolerância onde a igualdade é considerada um valor absoluto. Nós somos constantemente coagidos a pôr de lado as nossas diferenças em nome de um objectivo maior, o do consenso. Somos educados a acolher a igualdade das ideias e não apenas a igualdade das pessoas. A Loja é muito apelativa para aqueles que incorporaram estes ideais.

A afirmação de que existe apenas um caminho para o Céu é muitas vezes tida como intolerante e desrespeitadora dos valores tolerantes do Ocidente. Na América é mesmo considerada ‘’unamerican’’! Mas se a cristandade é apontada como intolerante, então Cristo terá que ser acusado de forma semelhante, pois foi Ele quem se declarou a Si mesmo como o único caminho para o Pai.
De forma semelhante, existe uma mistificação, um erro, em considerar Cristo, Maomé, Buda, Zoroastres, Vishna, no mesmo plano. Ou a Bíblia, o Zohar, a Cabala, o livro dos Mormons, o Vedas, o Corão, o Zend Avesta, o Bhagavad Gita, no mesmo plano, o de indicar para o caminho de Deus de forma semelhante. Todos expressões equivalentes da vontade de Deus.

Acontece que, pelo uso da razão, a verdade só tem uma expressão em si mesma, não muda. Ao equalizar diferentes versões contraditórias sobre o meio de alcançar essa verdade (um objectivo que é comum à Loja), está subjacente o julgamento de que todas são falsas, nenhuma é verdadeira, pois são todas equivalentes.

Também os avatares, os teólogos ou professores de religião para a Loja - já se percebe de onde veio a construção teórica do filme panteísta Avatar -, não podem ser considerados de forma semelhante. Cristo disse de Si próprio que é Deus:

‘’Na verdade vos digo, antes que Abraão fosse, Eu Sou’’, Jo 8:58
‘’Eu e o Pai somos Um’’, Jo 10:30

Aliás, essa foi uma das principais causas da sua condenação à morte. Ora, isto deixa-nos numa posição irreconciliável: Ou Cristo é de facto Deus, e portanto não é igual aos outros avatares, ou Cristo é mais um avatar, mas é mentiroso, pois o cerne da sua mensagem reside numa enorme mentira e, portanto, não pode ser considerado como um mestre que indica o caminho para Deus. Esta posição justifica o ateísmo, mas desqualifica o indiferentismo.

Da mesma forma, a Bíblia não é um livro escrito pelo homem que indica um caminho para Deus. A Bíblia é um livro escrito pelo homem sob a inspiração de Deus, o Espírito Santo:
‘’…e nós agradecemos a Deus constantemente por isto, que quando recebeis a Palavra de Deus que ouvis de nós, vós não a aceiteis como a palavra de homens, mas como o que realmente é, a Palavra de Deus, que opera em vós os crentes’’, diz S.Paulo, 1 Tess 2:13.

Enquanto os cristãos proclamam que todos os homens são iguais, sublinham que as religiões não o são.

O Indiferentismo raramente é tema da homilia de domingo, mas trata-se de um problema sério para a família humana. Esta ideologia é ainda mais nefasta que a rejeição protestante da doutrina católica. O Protestante dá valor aos argumentos. Se ele tiver a noção do erro, franqueará a porta da Igreja Católica. Está sempre a acontecer e está sempre em aberto. O indiferente ou indiferentista, se tida a indiferença como ideologia, não valoriza os argumentos. Como não se importa com os argumentos, não reconhece o erro. Jesus alertou-nos sobre a gravidade da indiferença:

‘’Eu conheço as vossas obras: não sois quentes nem frios. Antes fosseis quentes ou frios! Mas porque sois mornos (também traduzido por ‘’nem carne nem peixe, indiferente, desinteressado, insensível’’), Eu vomitar-vos-ei da Minha boca’’, Ap 3:15-16.

Ironicamente, embora a maioria das igrejas protestantes tenham condenado a Maçonaria, o indiferentismo é a reacção inevitável ao racionalismo da Reforma Protestante. A Reforma dispensa intermediários na interpretação das Escrituras e deixa-a ao julgamento particular, privado, relativo. Este relativismo abriu a porta ao indiferentismo moderno e continua a dividir a comunidade protestante em novas seitas a cada ano que passa. À medida que a divisão aumenta, menos das Escrituras é aceite como comum, sendo apenas consideradas válidas algumas afirmações genéricas e simples contidas na Bíblia. A maçonaria dilui ainda mais a verdade, ao afirmar que o essencial da doutrina de Deus se encontra no estudo da natureza, e que quem a estudar - pelas religiões, pela matemática, pelo ocultismo,…- se unirá ao Grande Arquiteto, essa alma da colmeia que olha sobranceira os seus pequenos escravos.
Os protestantes suprimiram a autoridade da Igreja, mas os maçons suprimiram o próprio Cristo.”
Comentado e adaptado de: John Salza “Masonry Unmasked: an insider reveals the secrets of the lodge” Our Sunday Visitor Publishing Division, 2006, pág. 43-51.



“O cérebro humano é uma máquina para chegar a conclusões; se não consegue fazer isso, enferruja”. “O homem pode ser definido como um animal que cria dogmas. As árvores não têm dogmas. Os nabos são surpreendentemente tolerantes”, GKC, Hereges, ed Ecclesiae, 2012.

A Sociedade dos Poetas Mortos é isso literalmente, poetas gnósticos mortos-vivos: a religião do carpe diem (disfruta o dia presente e sê o menos confiante possível no futuro) não é a religião das pessoas felizes, mas das muito infelizes. “Nada antes desferiu um golpe tão fatal contra os amores genuínos e contra o riso dos homens como o carpe diem dos estetas. Para sermos realmente despreocupados temos que acreditar que exista uma certa alegria eterna na natureza das coisas.” GKC, Ortodoxia, 1908. O “comamos e bebamos pois logo morreremos” de 1 Cor 15:32 é uma das mais extraordinárias aulas de São Paulo, em que desmente a mistificação existencialista por antecipação, e nos revela, de forma mística mas evidente, a passagem de uma ontologia humana a uma ontologia divina por meio de, e após, Jesus Cristo. 
Vá e leia! Esse capítulo 1 Cor 15 é uma luz que penetra a névoa do tempo e ilumina a nossa época; as suas palavras são eternas. 

Chesterton realça que a moralidade moderna não tem nenhuma perfeição para indicar. Dissolvida numa espiritualidade colectiva de colmeia, num Karma, retira ao homem aquilo que mais o enobrece: a responsabilidade da escolha e as suas consequências, a capacidade de fazer um juízo com base em valores positivos, o livre-arbítrio.

“Conhece-se o teor de uma civilização pelo gosto e pela atenção com que se pondera o passado. Com que se registam factos e feitos, com que se demarca com pedras, como na história de João e Maria, o caminho percorrido, como se esse fosse também um caminho de volta. Pelo contrário, avalia-se a gravidade de uma crise civilizacional (como a que atravessamos agora) pelo desprezo ou violência com que os modernos querem romper com o passado. Esta é uma atitude de desesperado ou de bárbaro. Em qualquer das hipóteses, uma atitude sub-humana. Romper com o passado é, numa linha horizontal e freudiana, desejar a morte do pai; numa linha vertical e teológica, desejar a morte de Deus. Numa outra perspectiva, romper com o passado é romper com o humano.”

“A alegria, que era a pequena publicidade do pagão, é o gigantesco segredo do cristão. E no final deste caótico volume, volto a abrir o estranho livrinho de onde proveio o cristianismo, e sinto-me novamente assombrado com uma espécie de confirmação. A tremenda figura que enche os evangelhos eleva-se – neste aspecto como em todos os outros - acima de todos os pensadores que alguma vez se consideraram elevados. A Sua compaixão era natural, quase rotineira. Os estóicos, antigos e modernos, orgulhavam-se de ocultar as próprias lágrimas. Mas Cristo nunca escondeu as Suas; mostrou-as claramente, no rosto aberto, à luz do dia, diante da Cidade à qual pertencia. Mas escondia alguma coisa. Super-homens solenes e diplomatas imperiais orgulham-se de conter a própria ira. Cristo nunca conteve a sua. Atirou as mesas e as bancas pelas escadas do templo abaixo, e perguntava às pessoas como esperavam escapar à condenação do inferno. Mas continha alguma coisa. Digo-o com reverência: havia naquela personalidade devastadora algo a que temos de chamar timidez. Havia algo que Ele ocultava permanentemente, por meio de silêncios abruptos ou de isolamentos impetuosos. Havia algo grandioso demais para Deus nos mostrar quando andou sobre a nossa terra. E eu tenho imaginado, de quando em vez, que se tratava da alegria.” Ortodoxia, ed Aletheia 2008.
António Campos

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